quinta-feira, 19 de novembro de 2009

mas então você voou daqui ...

"Inexperiência e esperar, esperança de amar".

A moça acordou e foi comprar papel de carta, viu uma maquina fotográfica e resolveu que também ia comprar, queria registrar na alma o dia em que decidiu ser feliz. Ela sabia desde que abriu os olhos na manhã que aquele era o fim, e que não doia mais. Finalmente o tempo de espera e depressão-pós-relacionamento havia acabado. A moça chegou em casa, se olhou espelho e se perguntou pela milésima vez onde havia errado, e se sentiu tão ridícula por fazer uma pergunta tão clichê da fase de depressão-pós-relacionamento. Ela sabia onde havia errado, mas tentava encobrir toda a sua insegurança e todas as vezes em que demonstrou ela. Tentou encobrir todas as vezes em que expos sua alma nua para ela. Ela chorou lágrimas salgadas sem explicação. Lágrimas que tiravam o peso de uma tonelada do coração dela. O vazio de dentro do peito foi passando e entrou uma sensação em seguida de que tudo ia ficar bem, então resolveu escrever uma dessas cartas de depressão-pós-relacionamento. Então ela se sentou e se vestiu de palavras que não eram de mais ninguém. Só dela. E então conseguiu escrever a carta mais cheia de medo, mania, beijo e acima de tudo amor de toda sua vida. Era isso que aquele carta era: Parte da sua vida.
Então imaginou a carta chegando, ela abrindo-a e vendo novamento toda sua alma nua, exposta e sem medo. Porque ela não tinha receio de amar e errar, e talvez esse tenha sido seu maior erro.
Fazia quanto tempo? Sete meses, talvez.

"Tentei te esquecer, te tirar do fundo da minha alma, mas não posso e na verdade, eu nunca quis. E nossa história acabou antes de um ponto final, você sabe o quanto eu ligo para virgulas e pontos. Doeu não ver o nosso, acho que por isso demorei tanto para compreender o que havia acontecido. Nossa história evaporou, como uma dessas chuvas fininha de verão.
Sabe, acredito que você é uma dessas pessoas que não nasceram para ficar. Existem pessoas assim, não existem? Dessas que não conseguem ser permanentes. Você é uma marinheira em um porto, quando eu te encontrei você me contou tantas histórias lindas envolvendo sereias e cantos que eu não consegui enxergar que uma hora ou outra, você ia partir para outro porto, para contar outras histórias. Você foi embora e levou o meu amor junto com você até o próximo cais. Foi aí que começou a tempestade, porque eu te vejo assim de vez em quando, como uma tempestade que mudou minha vida completamente. Toda aquela intensidade não iria me deixar ser a mesma nunca mais. Você me fez descobrir uma moça fina que havia aqui dentro, uma moça que as vezes diz coisas inteligentes e adora ser protegida. Me fez ver que às vezes a gente tem que parar de se preocupar e se perguntar o tempo todo. Eu estou levando uma vida muito mais fácil depois de você, não me questiono mais por tudo e quando acontece, penso com carinho em você que me fez descobrir tanta, mas tanta coisa. Como aquele azul que eu achava sem graça e você me contou dele de um jeito tão lindo que hoje em dia tudo é mais blue na minha vida. E um blue tão cheio de graça e beleza. Você me mostrou que o azul faz a gente querer voar alto. Mas então você voou daqui. E eu não entendia o porque de você ter ido me deixando com tantas coisas. Tantas coisas bonitas que eu preciso dividir com alguém. E é por isso que escrevo: Para por um ponto final e poder seguir em frente, em outra folha, para poder mostrar o azul para outras também. As coisas tinham mesmo que ser assim. E a vida aprontando poucas e boas enquanto eu olhava para dentro, te procurando. Meus olhos faiscando de caprichos e inseguranças. Errei com você por não te agradecer, não foi? Claro que eu queria mais do que tudo que aquelas promessas fossem reais, e é claro que foi puro egoísmo e ignorância. Nós não buscávamos as mesmas coisas, tínhamos mundo diferentes e sonhos construídos sob alguns bons quilômetros de distância. Minha infantilidade de não saber falar na hora certa hoje em dia me faz perguntar por que a gente nunca diz o que tem de ser dito, por que a gente sempre fala mais do que devia, por que as palavras nem sempre são nossas amigas inseparáveis, por que você calou quando tudo o que eu precisava era de um pouco de diálogo. Por quê? São tantas coisas.... Mas a verdade é que simplesmente usamos o silêncio como o ponto final, só que ele era tão grande que fez três, tornando então tudo uma história não terminada. Malditas reticencias.
Nossas linguas soltas que não falavam, mas beijavam. Meu corpo colado no teu e eu sentindo tudo aquilo são coisas que eu não vou - e nem quero - esquecer. Cansei dessa bagunça e guardei tudo que tinha você em uma caixinha, lá no fundo do meu coração. Estou voltando atrás e abrindo a vida, estou reencontrando o dia em que podíamos conversar. Claro que faltou tempo, espaço e maturidade. Só não me faltou coragem para ser boba. Porque a gente sempre fica bobo quando deixa a boca falar do que está cheio o coração. E então ao invez de falar eu engolia músicas românticas, e tinha medo de lembrar da princesa marinheira que tinha ido para outro porto. Se um dia você aparecer novamente vou te abraçar e dizer o quanto seus olhos brilham e o quanto você me ensinou. Você faz falta porque levou um pedaço meu contigo, mas não foi tão ruim porque eu tive que me reconstruir e então passei a ver as coisas de um jeito diferente, de um jeito estrela do mar, de um jeito cheio de jeitos para a beleza se completar. E eu digo estrela do mar porque elas perdem os braços e ficam novinhas novamente. E você me ensinou a ser assim, me ensinou que eu consigo ficar nova em folha e que eu consigo ser tão (ou mais?) bela como antes. E para isso eu preciso colocar o ponto final que faltou. O mundo dá tantas voltas que me deixa zonza, então resolvi sair da toca e pronto: Estou me sentindo melhor. Já agradeci por isso? Por aprender a resolver minhas dores do trabalho, dos sonhos que ficaram para trás e dos "amores-reticências". Desculpa desenterrar tudo isso, mas eu precisava ter certeza que esse passado vai fazer parte do meu futuro. Essa vida tem coisas engraçadas, né? Tudo que foi ainda é. E ninguém entende nada. E há de se rir nas horas certas pra chorar com mais leveza quando o sr. coração resolver adoecer. Bem... esse é o meu ponto final totalmente sem mágoa. E cheio de carinho.

P.S.: Você me disse que eu era a formiga mais bela que você já havia visto na vida, e disse que eu não deveria ter medo das cigarras, folhas, inverno ou afins. Estou bem. Fica bem também.


Quando a moça estrela do mar colocou a carta no correio, sentiu o amor correndo em suas veias. Quanto tempo perdido enquanto ela adiava por esse ponto. Quanto tempo perdido enquanto ela adiava ser o que era. Lembrou-se então da camera e tirou uma foto de seus pés, para se lembrar de não parar nunca, de sempre seguir em frente. Sentiu tanta felicidade que pensou que um dia encontraria outros pés para seguir com ela. O mundo é doce.
E as moças também, apesar de serem confusas.

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